Energia Cerebral: Como o Cérebro Roda a 20 Watts
By Brenner Cruvinel • 20 minutes read
salvando isso aqui para não ter que pesquisar toda vez que preciso dessas infos sobre energia cerebral:
o cérebro é 2% da massa do corpo e gasta 20% do oxigênio e 25% da glicose. e o consumo quase não muda, varia só 5 a 10% entre repouso e atividade intensa. ou seja, a luz fica acesa o tempo todo, o custo é basal, não sob demanda. um cérebro humano roda em ~20 watts, menos que uma lâmpada LED, e faz conta que supercomputador de megawatt não alcança.
panorama do gasto
taxa metabólica basal, em números redondos: consumo de O2 ~3.5 mL/100g/min, consumo de glicose ~5.6 mg/100g/min, produção de ATP ~7.8 kg/dia (algo perto de 70% do peso do próprio cérebro, em massa de ATP reciclada por dia).
a divisão de onde a energia vai é o ponto que mais me marca. sinalização domina, manutenção é barata.
sinalização sináptica e potenciais de ação 60-80% potencial de membrana em repouso 10-15% síntese proteica e lipídica 5-10% transporte axoplasmático 5% manutenção celular e mitose <5%
fundamentos termodinâmicos e biofísicos
energia livre de Gibbs
o cérebro é um sistema termodinâmico aberto, e a energia livre de Gibbs governa cada reação:
$$\Delta G = \Delta H - T\Delta S$$
a hidrólise do ATP libera ~-30.5 kJ/mol nas condições fisiológicas do cérebro (pH 7.4, 37 graus C, concentrações iônicas do líquor).
a eficiência chama atenção:
motor de combustão roda a 20-25%. o cérebro converte glicose em trabalho útil a ~38%, perto do limite teórico pra sistema biológico em temperatura corporal.
isso vem do acoplamento apertado entre reação exergônica e endergônica.
gradientes eletroquímicos e Nernst
o potencial de membrana é um reservatório de energia. com ~86 bilhões de neurônios, cada um segurando -70 mV através de membrana de 7 nm de espessura, o campo elétrico dá 10 milhões de volts por metro, comparável a capacitor de alta tecnologia. a equação de Nernst dá o potencial de equilíbrio de cada íon:
$$E_{\text{ion}} = \frac{RT}{zF} \ln\frac{[\text{ion}]{\text{out}}}{[\text{ion}]{\text{in}}}$$
onde R = constante dos gases (8.314 J/mol·K), T = temperatura absoluta (310 K no cérebro), z = valência do íon, F = constante de Faraday (96,485 C/mol).
pra potássio, com 5 mM extracelular e 140 mM intracelular, $E_{\text{K}} = -90$ mV. manter esses gradientes contra a difusão passiva consome ~50% do ATP neuronal.
entropia e informação
processar informação produz entropia. cada bit custa no mínimo $kT \ln 2$ (princípio de Landauer), com k a constante de Boltzmann. pro cérebro a ~$10^{16}$ operações por segundo, o limite termodinâmico fica em ~$3 \times 10^{-5}$ watts, várias ordens de magnitude abaixo dos 20 watts reais.
o cérebro opera longe do limite teórico. ele prioriza velocidade e confiabilidade, não eficiência máxima.
arquitetura molecular da produção de energia
a cadeia de transporte de elétrons, complexo a complexo. cada um é uma máquina, com massa, número de subunidades e estequiometria de próton própria.
complexo I, NADH:ubiquinona oxidoredutase
máquina de 980 kDa, 45 subunidades (14 conservadas na evolução). estrutura em L, 180 Å na membrana interna. o braço hidrofílico tem 9 clusters ferro-enxofre numa “wire” de transferência com distâncias edge-to-edge menores que 14 Å, o que permite tunelamento quântico eficiente. o bombeamento de próton vem de mudança conformacional propagada por uma haste helicoidal horizontal de 110 Å, mecanismo de pistão. cada elétron transferido bombeia 4 prótons.
mutações no complexo I aparecem em síndrome de Leigh (NDUFS1, NDUFS4, NDUFS7, NDUFS8), neuropatia óptica hereditária de Leber (mtDNA posições 3460, 11778, 14484), encefalopatia mitocondrial com acidose láctica (MELAS), e Parkinson (deficiência de 30% na atividade do complexo I na substantia nigra).
complexo II, succinato:ubiquinona oxidoredutase
único complexo inteiramente codificado pelo DNA nuclear. 130 kDa, dupla função (ciclo de Krebs e cadeia respiratória). quatro subunidades (SDHA, SDHB, SDHC, SDHD), não bombeia próton, só entrega elétron pro pool de ubiquinona. SDHA segura o sítio do succinato e o FAD ligado covalentemente. SDHB tem três clusters ferro-enxofre, [2Fe-2S], [4Fe-4S] e [3Fe-4S]. SDHC e SDHD ancoram na membrana e formam o sítio da ubiquinona com um heme b único.
complexo III, ubiquinol:citocromo c oxidoredutase
480 kDa, dímero funcional. roda o ciclo Q: acopla a oxidação de um elétron do citocromo c com a oxidação de dois elétrons da ubiquinona, bombeia 4 prótons por 2 elétrons. dois sítios de quinona, Qo (externo, ubiquinol oxidado) e Qi (interno, ubiquinona reduzida). a bifurcação no Qo é crítica, um elétron vai via cluster de Rieske pro citocromo c1, outro via hemes bL e bH pro Qi, e tem que ser controlada com precisão pra não gerar superóxido.
complexo IV, citocromo c oxidase
420 kDa, catalisa a reação terminal, O2 reduzido a H2O. 13 subunidades no complexo mamífero, três catalíticas conservadas (COX1, COX2, COX3) codificadas pelo mtDNA. o centro binuclear heme a3-CuB executa a redução do oxigênio por intermediários controlados: estado oxidado (O), reduzido (R), aduto oxigênio (A), peroxy (P), ferril (F). cada ciclo bombeia 4 prótons enquanto consome 4 na redução do O2. canais de próton distintos (D-channel, K-channel, H-channel) coordenam isso.
complexo V, ATP sintase
motor molecular rotativo de 650 kDa, dois motores acoplados, F0 movido por próton na membrana e F1 químico que sintetiza ATP. o anel de subunidades c tem 8 unidades em mamíferos (varia entre espécies). cada giro de 360 graus do anel c produz 3 ATP (um por sítio catalítico β). com 8 subunidades c, isso dá 8 prótons por 3 ATP, ~2.67 prótons por ATP. eficiência mecânica perto de 100%, quase toda a energia do gradiente vira torque. rotação pode passar de 300 Hz sob gradiente alto.
produção de ATP, visão por via
glicólise: citoplasma neuronal e glial. glicose vira glicose-6-fosfato pela hexoquinase, 10 reações em sequência, rende 2 ATP + 2 NADH + 2 piruvato por glicose, ~2% da energia total disponível. enzima limitante é a fosfofrutoquinase (PFK), inibida por ATP e citrato, ativada por AMP e ADP. fosforilação oxidativa: matriz e membrana interna, a cadeia de cinco complexos acima. rende 30-32 ATP por glicose, eficiência ~38%. ciclo de Krebs: por acetil-CoA produz 3 NADH, 1 FADH2, 1 GTP, 2 CO2.
substratos energéticos
glicose
transporte por GLUT: GLUT1 na barreira hematoencefálica (Km 1-2 mM), GLUT3 em neurônios (Km 1.4 mM), GLUT4 em neurônios (insulino-dependente). armazenamento em glicogênio (~0.1% do peso cerebral), principalmente em astrócito, reserva de emergência de 5 a 10 minutos.
corpos cetônicos
até 70% das necessidades energéticas no jejum prolongado. β-hidroxibutirato (principal), acetoacetato, acetona. transporte por MCT1 e MCT2.
lactato e o shuttle astrócito-neurônio (ANLS)
a lógica do ANLS: o astrócito faz glicose em lactato (glicólise aeróbica), exporta por MCT1/4, o neurônio importa por MCT2 e transforma lactato em piruvato em ATP. concentração cerebral basal 1-2 mM.
metabolismo compartimentalizado
o ponto central: não existe “metabolismo do cérebro” homogêneo. cada tipo de célula tem assinatura própria.
o detalhe completo de cada tipo fica numa nota à parte sobre metabolismo neural. resumo dos números que ancoram:
neurônios piramidais
70-80% dos neurônios corticais, os principais consumidores.
densidade mitocondrial: segmento inicial do axônio 5 mito/μm³, dendritos apicais 2-3, soma 3-4, terminais pré-sinápticos 8-10 consumo de ATP por compartimento: sinapses 45%, dendritos 25%, soma 15%, axônio 15% adaptações: MCT2 elevado pra captar lactato, GLUT3 denso (Km 1.4 mM), complexo I com subunidades neuronais específicas
interneurônios GABAérgicos
20-30% dos neurônios corticais, demanda desproporcional. disparam até 500 Hz (parvalbumin+), um interneurônio basket contacta mais de 1000 piramidais, e a síntese de GABA custa 2 ATP por molécula. subtipos: PV+ tem metabolismo oxidativo extremo e densidade mitocondrial 2x a do piramidal, SST+ é intermediário com enzimas glicolíticas altas, VIP+ é misto com switch dependente de atividade.
neurônios dopaminérgicos
vulnerabilidade metabólica única da substantia nigra: axônios não-mielinizados de até 4.5 metros de comprimento total, 100,000 a 200,000 terminais por neurônio, auto-oxidação da dopamina gerando stress oxidativo contínuo, metabolismo de ferro alto (neuromelanina), e oscilação de cálcio tipo pacemaker queimando ATP o tempo todo.
astrócitos protoplasmáticos
domínios territoriais não-sobrepostos de ~80,000 μm³, cada um contactando 100,000 sinapses, 4-6 segmentos vasculares e 300-600 dendritos. glicogênio 2-4 mM (20x o neurônio), grânulos de 10-40 nm, turnover de 2-3 horas em atividade, mobilização via PKA/cAMP em menos de 5 segundos. enzimas glicolíticas superexpressas: hexoquinase I 5x, fosfofrutoquinase 3x, aldolase C específica de astrócito, piruvato quinase M2 (permite metabolismo tipo Warburg). shuttles: malato-aspartato (NADH pra mito), glicerol-3-fosfato (backup), e o ciclo glutamato-glutamina recicla 80% do glutamato sináptico.
oligodendrócitos
mantém até 50 segmentos de mielina. síntese lipídica contínua (25% do colesterol cerebral), transporte por canais citoplasmáticos de 10-15 nm, junções paranodais com custo de ATP. produzem 70% do peso seco em lipídio, CNPase única (2’,3’-cyclic nucleotide 3’-phosphodiesterase), e são vulneráveis a stress oxidativo (glutationa peroxidase baixa).
micróglia
5-10% das células, mas pode consumir até 20% da glicose quando ativa. em vigilância (ramificada) tem metabolismo oxidativo basal e scanning contínuo (cada célula varre 100,000 μm³ a cada 4-5 horas). ativada (ameboide) faz switch pra glicólise aeróbica (Warburg), aumento de 300% no consumo de glicose, produz NO, citocinas e ROS, e gasta ATP na fagocitose pra rearranjar actina.
vias metabólicas integradas
glicólise, análise molecular
hexoquinase, o gatekeeper. quatro isoformas. HK-I em neurônios (70% ligada à mitocôndria, Km glicose 0.03 mM, inibição por G6P Ki 0.2 mM, associação com VDAC previne apoptose). HK-II em astrócitos e neurônio em desenvolvimento (Km glicose 0.3 mM, regulada por Akt/PKB, dissocia da mitocôndria na apoptose). a ligação da hexoquinase à mitocôndria via VDAC cria um microdomínio onde o ATP recém-sintetizado é usado na hora, ganho de eficiência de 30-40%.
fosfofrutoquinase-1 (PFK-1), o comprometimento glicolítico. tetrâmeros de três subunidades, PFKM (músculo, neurônio maduro), PFKL (fígado, astrócito), PFKP (plaqueta, ubíqua, alta no cérebro fetal). ativadores AMP, ADP, F-2,6-BP, NH4+, K+. inibidores ATP, citrato, H+, PEP. o paradoxo da PFK: ATP é substrato e inibidor ao mesmo tempo, o que dá uma curva sigmoide e permite switch rápido entre ativo e inativo.
GAPDH, além da glicólise. funções não-glicolíticas críticas: regulação transcricional (transloca pro núcleo), controle de apoptose (liga Siah1), metabolismo de ferro (interage com transferrina), patologia de Alzheimer (co-agrega com tau e β-amiloide). a S-nitrosilação no Cys150 troca a GAPDH de enzima glicolítica pra indutor de apoptose.
ciclo de Krebs, o hub
piruvato desidrogenase (PDH), gatekeeper mitocondrial. complexo de 9.5 MDa, 30 cópias de E1, 60 de E2, 12 de E3, 12 de E3BP. regulado por fosforilação: PDK1-4 inativam (PDK2 predomina no cérebro, ativadas por ATP/ADP alto, NADH/NAD+ alto, acetil-CoA/CoA alto), PDP1-2 ativam (PDP1 ativada por Ca2+, acopla com atividade, dependente de Mg2+).
citrato sintase, sensor metabólico. primeira reação committed: acetil-CoA + oxaloacetato + H2O vira citrato + CoA. inibida por ATP, NADH, succinil-CoA. oxaloacetato é limitante. a razão citrato/isocitrato indica estado energético.
isocitrato desidrogenase, ponto de controle principal. três isoformas, IDH1 (citosólica, NADP+), IDH2 (mitocondrial, NADP+), IDH3 (mitocondrial, NAD+, é a do ciclo). IDH3 é o controle: ativada por Ca2+ e ADP, inibida por ATP e NADH, primeiro passo do ciclo a produzir NADH. mutação em IDH1/2 em glioma produz 2-hidroxiglutarato (oncometabolito).
α-cetoglutarato desidrogenase, o gargalo. complexo similar ao PDH (24 MDa), E3 compartilhada com PDH. único passo irreversível depois da citrato sintase. extremamente sensível a stress oxidativo (inativa por ROS), a tiamina (beriberi, Wernicke-Korsakoff), e a [Ca2+] (Km 1 μM, dentro da faixa fisiológica).
via das pentoses fosfato
o detalhe da via e do metabolismo do glicogênio fica à parte. núcleo:
fase oxidativa, produção de NADPH. glicose-6-fosfato desidrogenase (G6PD) é o passo limitante e committed (Km G6P 0.05 mM, saturada em condição fisiológica, inibida por NADPH Ki 0.01 mM, e a deficiência de G6PD dá neuroproteção paradoxal em algumas condições). 6-fosfogluconolactonase hidrolisa rápido pra evitar reversão (meia-vida da lactona 30 segundos sem enzima, menos de 0.1 segundo com). 6-fosfogluconato desidrogenase produz o segundo NADPH e ribulose-5-fosfato, e o CO2 sai do primeiro carbono da glicose original.
fase não-oxidativa, interconversão de açúcar. transcetolase requer tiamina pirofosfato (TPP), deficiência dá Wernicke-Korsakoff, marcador de atividade no eritrócito. transaldolase usa base de Schiff, deficiência acumula poliol.
metabolismo do glicogênio
síntese: glicogenina é a proteína primer que se auto-glicosila (primeiros 10-20 resíduos, complexo 1:1 com a glicogênio sintase). glicogênio sintase adiciona via α-1,4, forma a (ativa) desfosforilada, forma b (inativa) fosforilada em até 11 sítios, e a glicose-6-fosfato pode dar override da fosforilação. enzima ramificadora transfere segmentos de 6-7 resíduos, cria ramificação α-1,6 a cada 8-12 resíduos.
degradação: glicogênio fosforilase (isoforma cerebral PYGB) remove glicose-1-fosfato das pontas e para 4 resíduos antes da ramificação. enzima desramificadora (AGL) tem atividade 4-α-glucanotransferase (move 3 resíduos) e amilo-1,6-glucosidase (remove a ramificação). diferença importante: neurônio tem a fosforilase largamente inativa (falta fosforilase quinase b), astrócito mobiliza rápido via noradrenalina/VIP, cAMP, PKA.
sistemas de transporte
GLUTs
GLUT1, guardian da barreira. duas isoformas por splicing, 55 kDa em célula endotelial (20,000 cópias/célula) e 45 kDa em astrócito e oligodendrócito. 12 hélices transmembrana, conformação alternante (outward-open, occluded, inward-open), taxa de 10,000 moléculas/segundo. upregula na hipoglicemia crônica (2-3x em 3 dias), downregula na hiperglicemia. a deficiência de GLUT1 (síndrome De Vivo) dá epilepsia intratável, retardo de desenvolvimento, microcefalia adquirida, glicose no CSF abaixo de 40 mg/dL com glicemia normal.
GLUT3, o neuronal. Km 1.4 mM (5x menor que GLUT1), o maior Vmax/Km de todos os GLUTs, fica na membrana neuronal, principalmente sináptica, e não é regulado por insulina.
GLUT4, a conexão insulina-cérebro. restrito a hipocampo, cerebelo e hipotálamo. transloca durante LTP, necessário pra consolidar memória, é o elo entre diabetes e déficit cognitivo.
MCTs
MCT1: endotélio, astrócito, oligodendrócito. Km lactato 3-5 mM, bidirecional pelo gradiente, co-transporte com H+ (eletroneutro) MCT2: neurônio (pós-sináptico). Km lactato 0.7 mM (alta afinidade), importador preferencial, colocaliza com receptor AMPA MCT4: astrócito (glicolítico). Km lactato 15-30 mM, exportador preferencial, upregula por hipóxia (HIF-1α)
aminoácidos
sistema L (LAT1/LAT2). LAT1 na BBB e neurônio, transporta Phe, Tyr, Leu, Ile, Val, Trp, Met, His, antiporter obrigatório com 4F2hc, Km 10-50 μM. LAT2 em astrócito, menor afinidade, maior capacidade, detoxifica amônia.
transportadores de glutamato (EAATs). EAAT1 (GLAST) no cerebelo e astrócito cortical. EAAT2 (GLT-1) faz 95% da captação de glutamato (1 glutamato + 3 Na+ + 1 H+ pra dentro, 1 K+ pra fora, consome 1-2 ATP equivalentes por ciclo). EAAT3 (EAAC1) em neurônio, capta cisteína. EAAT4 em célula de Purkinje. EAAT5 na retina. a disfunção de EAAT2 aparece em ELA, epilepsia e isquemia (downregula rápido).
acoplamento neurovascular
a unidade neurovascular e a cascata de hiperemia funcional ficam detalhadas numa nota à parte sobre acoplamento neurovascular. os números estruturais e os tempos de resposta que ancoram:
unidade neurovascular
neurônios: 40,000-100,000/mm³, distância média ao capilar 15-20 μm, difusão de O2 menor que 100 ms astrócitos: cobrem mais de 99% da superfície capilar, pés terminais a 4-10 nm da lâmina basal, domínio de 65,000-85,000 μm³ pericitos: cobrem 30-50% do comprimento capilar, razão pericito:endotélio 1:3 no cérebro (1:100 na periferia), contráteis, mudam o diâmetro até 20% células endoteliais: superfície 100-200 cm²/g de tecido, tight junctions com resistência 1500-8000 Ω·cm², pinocitose 5-10x menor que endotélio periférico lâmina basal: 20-200 nm, colágeno IV + laminina + fibronectina + proteoglicano, barreira pra molécula acima de 70 kDa
microvasculatura por região: córtex motor 400-500 capilares/mm², substância cinzenta 300-400, substância branca 100-150, hipocampo CA1 450-550. comprimento capilar total 600-700 km no cérebro humano, distância intercapilar 40-50 μm, fluxo 0.5-1 mm/s no capilar.
hiperemia funcional
a cascata que aumenta o fluxo local em 15-30%, resposta em 1-2 segundos após a ativação: atividade sináptica sobe, libera glutamato, ativa NMDA/mGluR, sobe Ca2+ intracelular, ativa nNOS/COX-2/P450, produz vasodilatador (NO, PGE2, EETs), arteríola dilata, fluxo sobe. as quatro vias paralelas (NO, prostanoide, EET, adenosina), o sifonamento de K+ e a autorregulação 50-150 mmHg ficam na nota à parte.
mitocôndrias neuronais
biogênese, fissão, fusão, transporte e controle de qualidade ficam numa nota à parte sobre dinâmica mitocondrial. âncoras:
biogênese: PGC-1α é o master regulator (ativado por Ca2+/CaMK, AMPK, SIRT1, induz NRF1/2 e ERRα, upregula com exercício, jejum, frio). TFAM empacota o mtDNA (1 TFAM por 10-20 bp, 1000-2000 moléculas por mitocôndria). genoma mitocondrial: 13 proteínas, 22 tRNAs, 2 rRNAs, contra ~1500 proteínas mitocondriais vindas do núcleo. duplicação leva 1-2 semanas.
fissão: DRP1 (GTPase de 80 kDa, anel de constrição de 30-50 nm), processo de 60-90 segundos, ativada por fosforilação S616 (CDK1, PKCδ), inibida por S637 (PKA, CaMKIα). fusão: MFN1/MFN2 na externa, OPA1 na interna (8 isoformas, longas fundem, curtas remodelam cristae). kiss-and-run a cada 15-20 minutos em neurônio.
transporte: anterógrado por kinesina-1 (KIF5A/B/C, 0.5-2 μm/s, 5-7 pN), adaptadores Milton/TRAK1/2 e Miro1/2 (sensor de Ca2+, acima de 1 μM para o transporte e ancora onde a demanda é alta). retrógrado por dineína (0.5-1 μm/s). mitofagia via PINK1/Parkin leva 2-4 horas. mitofagia basal é 0.5-1% das mitocôndrias/dia em neurônio jovem, sobe pra 2-3%/dia aos 60 anos.
energética sináptica
o custo da neurotransmissão, vesícula por vesícula e plasticidade por fase, fica detalhado à parte, na energética sináptica. os totais que importam:
ciclo vesicular completo: 500-1000 ATP por vesícula (carregamento 200-400, priming 4-5, endocitose 300-500, reciclagem de membrana 70-130) restauração iônica: EPSP ~5,500 ATP, IPSP ~1,700 ATP LTP custa 2-5 milhões de ATP por sinapse, LTD custa 200,000-500,000 microdomínios de ATP: citosol sináptico 2-4 mM, interior vesicular 100-150 mM, superfície mitocondrial 5-8 mM, fenda sináptica 10-100 μM após liberação tampão: fosfocreatina 10-20 mM, com creatina quinase mitocondrial (CK-Mt) e citosólica (CK-B)
ATP por potencial de ação na escala de $10^6$ moléculas. divisão do gasto na transmissão: restaurar gradiente iônico 40%, reciclar vesícula 20%, sintetizar neurotransmissor 15%, transporte e empacotamento 15%, sinalização de cálcio 10%.
estados metabólicos e ritmos
sono, ciclo circadiano e os estados patológicos ficam detalhados à parte: os ritmos circadianos e o sono na fisiologia normal, a clínica e as intervenções na patologia. núcleo:
vigília: 20 watts global (0.3 watts/kg), córtex frontal 25% acima da média, default mode network 20% do total. consumo diário de glicose 120-140 g, O2 50 mL/min, lactato produzido 20-30 mmol/dia, CO2 45 mL/min.
sono NREM: N3 reduz o metabolismo 20-25% global (frontal até -40%), tronco mantém 90%. o clearance glinfático sobe 60% (espaço intersticial expande 60%, fluxo de CSF 20x, remoção de β-amiloide 2x mais eficiente). reposição de glicogênio a 3x a taxa de vigília, acumula 30-40% em 8 horas.
sono REM: metabolismo 95-105% da vigília, áreas límbicas +20-30%, temperatura cerebral +0.5 graus C, produção de NO no pico. acetilcolina máxima, noradrenalina e serotonina mínimas.
ritmo circadiano: CLOCK/BMAL1 ativam (pico ZT 6-8), PER/CRY reprimem (pico ZT 18-20), REV-ERB e ROR fazem o loop auxiliar. razão NAD+/NADH varia 40-50% no dia (máxima 12:00-14:00). temperatura cerebral 37.5 graus C de pico (19:00-21:00) e 36.5 de nadir (04:00-06:00), efeito Q10 de 10-15% na taxa metabólica.
disfunção energética e patologia
a cascata isquêmica, os limiares de hipoglicemia e o detalhe das neurodegenerativas ficam na nota de clínica e intervenções. âncoras:
isquemia, linha do tempo:
| tempo | o que acontece |
|---|---|
| 0-10 s | função normal sustentada por fosfocreatina |
| 10-30 s | depleta fosfocreatina, começa glicólise anaeróbica (pH 7.4 pra 7.2) |
| 30-60 s | ATP cai pra 50%, a Na+/K+-ATPase falha |
| 1-3 min | ATP abaixo de 20%, despolarização anóxica, liberação massiva de glutamato |
| 3-5 min | falha mitocondrial irreversível, morte celular |
a penumbra (fluxo 10-25 mL/100g/min contra 50-60 normal) é salvável por 3-6 horas.
Alzheimer: hipometabolismo no córtex temporo-parietal -20 a -30%, complexo IV -50% de atividade, α-cetoglutarato desidrogenase -40%, PDH -30%, G6PD -50%. Parkinson: complexo I -30 a -40% na substantia nigra. Huntington: complexo II/III -30%, com a huntingtina mutante sequestrando PGC-1α.
medição e imaging
PET, MRI metabólico, optical imaging e técnicas ex vivo ficam detalhados à parte, nas técnicas de imaging. valores de referência que ancoram:
PET: 18F-FDG meia-vida 110 min, resolução 2-4 mm, SUV 5-8 no cérebro normal. 15O-H2O meia-vida 2 min pra fluxo. 1H-MRS detecta NAA 10-12 mM, creatina/fosfocreatina 8-10 mM, lactato 0.5-1 mM (dubleto em 1.33 ppm). 31P-MRS lê PCr 4-5 mM, ATP 2-3 mM cada. taxas por 13C-MRS: CMRglc 0.3-0.5 μmol/g/min, ciclo TCA 0.7-1.0, ciclagem glutamato-glutamina 0.2-0.4.
two-photon in vivo: profundidade até 1 mm, resolução 0.5 μm lateral e 2 μm axial, NADH em 740 nm. FLIM separa NADH livre (0.4 ns) de ligado (2-3 ns). respirometria de alta resolução (Oxygraph-2k, Seahorse XF) com protocolo SUIT.
modelagem computacional
modelos estequiométricos, cinéticos, multi-escala e de acoplamento ficam na nota de modelagem computacional. âncoras: Recon3D tem 13,543 reações e 4,140 metabólitos. o modelo de Jolivet et al. acopla neurônio, astrócito e vasculatura em 3 compartimentos e simula o sinal BOLD. o modelo balão usa as equações de Buxton-Wong, com $\tau_s$ 0.65 s, $\tau_f$ e $\tau_v$ 2.46 s, expoente de Grubb $\alpha$ 0.38.
intervenções terapêuticas
dieta, farmacologia, exercício e estimulação ficam na nota de clínica e intervenções. as fronteiras (single-cell metabolomics, organoide, IA, transplante mitocondrial) e as questões abertas ficam numa nota à parte sobre fronteiras e futuro. âncoras:
dieta cetogênica 4:1 (90% gordura, 8% proteína, 2% carboidrato) produz 2-5 mM β-hidroxibutirato, e o β-hidroxibutirato é inibidor de HDAC. epilepsia refratária responde com 50% de redução em 50% dos casos, e é o tratamento de escolha na deficiência de GLUT1. exercício sobe BDNF 200-300% (agudo) e volume hipocampal +2% em 6 meses (crônico). fotobiomodulação 810 nm estimula a citocromo c oxidase e sobe ATP 20-30%.
metabolismo lipídico cerebral
colesterol é 25% do total do corpo, sintetizado só localmente (não cruza a BHE), taxa 20-40 mg/dia. fosfolipídio com turnover de membrana 1-2% por hora e alto custo de ATP. beta-oxidação é menos de 20% da oxidação total, principalmente em astrócito, e serve manutenção estrutural, não energia primária.
heterogeneidade regional
córtex cerebral: 9-10 mg glicose/100g/min, densidade sináptica alta substância branca: 2-3 mg glicose/100g/min, manutenção de mielina cerebelo: 10% do volume cerebral mas 50% dos neurônios totais, taxa intermediária
questões abertas
os paradoxos que ficam (o detalhe está na nota de fronteiras e futuro): por que glicólise aeróbica com O2 adequado (Warburg neural), os casos de acoplamento inverso onde mais atividade dá menos metabolismo (default mode network), se cada neurônio é metabolicamente único, e a pergunta que me interessa mais, se existe assinatura metabólica da consciência.
cada pensamento é sustentado por elétron passando pela cadeia respiratória e por trilhão de ATP hidrolisado. entender a eficiência de 20 watts não avança só a medicina, pode inspirar computação nova.